quinta-feira, 27 de agosto de 2026

PERFIL DA LIDERANÇA DE JESUS A PARTIR DE JOÃO 13

Uma análise da liderança de Jesus a partir dos momentos finais de seu ministério terreno 

 RESUMO 

Liderar sempre foi desafiador. Diante dos desafios da liderança, os líderes estão sempre à procura de exemplos de lideranças exitosas ou de perfis de grandes líderes nos quais possam se espelhar. No tempo em que vivemos, em que a liderança eficaz parece exigir sucesso midiático e resultados astronômicos, muitos preceitos básicos da liderança são ignorados em nome destes resultados. É aquela máxima de que “os fins justificam os meios”. No entanto, nós sabemos que na liderança cristã não é assim. Há princípios que precisam ser observados para que o verdadeiro líder cristão seja aprovado, não tendo do que se envergonhar. Nesse sentido, é a Palavra de Deus que tem as diretrizes, as normas, o padrão perfeito da liderança cristã. Nela encontramos muitos exemplos de líderes de sucesso, que viveram com o propósito de servir a Deus e o agradar, assim como para servir as pessoas no exercício de seu ministério. O objetivo deste artigo é abordar o nosso exemplo maior de liderança, Jesus, mas a partir de uma de suas últimas reuniões com seus discípulos antes da crucificação. Este material aborda o perfil de liderança de Jesus a partir da narrativa de João capítulo 13, quando o Evangelista narra a cena da última ceia e do momento em que Jesus lava os pés de seus discípulos. Faremos uma análise desde o primeiro versículo do texto, demonstrando que Jesus viveu uma liderança com propósito firme, sabendo do seu papel e destino, sem recuar, nos deixando o exemplo de uma liderança com foco nos objetivos. O texto evidencia também o amor incondicional de Jesus como líder, tendo habilidade de liderar e amar inclusive os seus opositores. Na leitura do capítulo 13 de João, vamos observar também que Jesus é o nosso maior exemplo de líder servidor, que mesmo sendo Deus, veio para servir e não para ser servido. Em tempos em que os interesses pessoais parecem sobressair aos interesses do Reino de Deus, esse modelo de liderança precisa ser lembrado, ensinado e copiado por aqueles que de fato querem servir a Deus com uma pura consciência, tendo Jesus como o nosso maior exemplo de liderança a ser seguido, em todos os aspectos.

Palavras-chave: Jesus. Liderança. Servo. Servidor. Exemplo. Liderar. 

INTRODUÇÃO 

O texto do Evangelho Segundo João, no seu capítulo 13, nos apresenta um cenário dos momentos finais de Jesus com os seus Discípulos. A Sua obra estava prestes a ser consumada. O trabalho que Ele viera fazer estava prestes a ser executado, ou seja, a morte na cruz pelos pecados da humanidade. Vale lembrar que nestes momentos finais de seu ministério terreno e de sua encarnação, Jesus está completamente consciente de tudo o que lhe havia acontecido até aquele momento, e o que lhe sucederia. São momentos determinantes do Seu ministério que definiria também o futuro do ministério de seus discípulos. Os momentos finais da vida de grandes homens costumam demonstrar quais eram os seus verdadeiros ideais. Esses momentos finais variam desde arrependimentos por não terem vivido uma vida autêntica, não terem valorizado as relações e a felicidade, ou até mesmo a consciência de que fez tudo errado e agora é a hora do fim. Mas com Jesus é bem diferente. Ele está prestes a entregar a sua própria vida pela humanidade perdida, e nestes momentos finais ele não recua, mas deixa-nos, mais uma vez, um belo exemplo de seu ministério servidor e o retrato da verdadeira liderança. Este texto abordará exatamente isso, ou seja, os traços da liderança de Jesus que marcaram aqueles simples homens da Galileia, o mundo de seus dias e que ultrapassou as gerações e chegou até os nossos dias. 

UMA LIDERANÇA QUE TEM OBJETIVOS BEM DEFINIDOS 

“...sabendo Jesus que já era chegada a sua hora...” (Jo 13.1) 

O termo “chegada a sua hora” nos deixa claro que Jesus sabia desde o início para que veio e que esta hora se aproximava. Ele sabia que a hora de morrer pelos pecados da humanidade estava prestes a chegar. Em Jo 2.4 ele fala com a sua mãe: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”.  Este fato se deu no casamento em Caná da Galiléia. O que Jesus estava dizendo aqui para Maria, sua mãe, é que uma vez que ele operasse o primeiro milagre estaria iniciando a sua caminhada para a cruz, e não teria mais volta. Isto deixa claro que ele tinha um objetivo bem definido desde o início de seu ministério, mesmo antes de se manifestar publicamente.

O mesmo termo é usado pelo Mestre em Jo 7.30, 31: “Procuravam, pois, prendê-lo, mas ninguém lançou mão Dele, porque ainda não era chegada a sua hora. E muitos da multidão creram nele”. As reações das pessoas acerca das palavras e atitudes de Jesus está intimamente ligado ao propósito de Sua missão. O que fazemos, o que falamos, o que somos, as nossas atitudes, as nossas decisões, fará com que as pessoas com as quais relacionamos e nos ouvem, nos odeiem ou se unam a nós em nossos propósitos. Perceba que isto é claro neste versículo de João 7. 31,31. Jesus acabara de pregar no Templo, e a reação de sua pregação dividiu a multidão: Alguns “procuravam, pois, prendê-lo” (30), no entanto, “muitos da multidão creram nele”. Outros queriam o seu mal, mas não podiam porque a “sua hora” não havia chegado. A “hora de Jesus” é a sua morte, que resultaria também “na hora de sua exaltação e glorificação, e no poder da luz sobre o poder das trevas”, e essa hora estava prestes a chegar.

Em Jo 12. 23,24 Jesus anuncia aos seus discípulos pela primeira vez que a hora tão esperada era chegada: “E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a hora em que o Filho do Homem há de ser glorificado. Na verdade, na verdade vos digo, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto”. Perceba que nos versículos anteriores Jesus disse que “não é chegada a minha hora”. Agora, pela primeira vez ele exclama: “É chegada a hora”. As outras vezes que Ele expressa da mesma forma estão em Jo 13.1 e Jo 17.1.

Neste texto Jesus é abordado por dois de seus discípulos que lhe trazem um pedido: haviam gregos que gostariam de ouvir Jesus. Por inferência, podemos entender que esses gregos poderiam estar presentes quando Jesus lhes respondeu em Jo 12.23, a a resposta inclua os gregos que estavam ali para ouvir Jesus. Eu acredito que assim seja, até pelo fato da parábola que Jesus passa a expor leva a uma reflexão profunda, e porque não dizer leva os sábios e entendidos a refletirem, mesmo que tal parábola seja de entendimento fácil.

A parábola do grão de trigo que precisa morrer para dar muito fruto é uma alusão clara a sua morte, ao seu sepultamento e a sua ressurreição. Da mesma forma, ele estava ensinando que os verdadeiros discípulos de Jesus não se prendem a esta vida com afeição apaixonada. Aliás, se prender a esta vida com afeição apaixonada é a morte impulsiva e permanente para qualquer um que deseja fazer a obra de Deus. A entrega de Jesus ao propósito produziria frutos para toda a eternidade! E é aqui que fica claro mais uma vez que em sua liderança Jesus tinha propósitos bem definidos.

A “hora era chegada”, mas ela não terminaria ali, mas passaria deste mundo para a eternidade, abrindo os portões eternos para a humanidade perdida, reconciliando o homem a Deus através do sangue remidor. “...sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai...”. A definição de seu propósito e a execução deste plano está intimamente ligada ao relacionamento de Jesus com o Pai.

            A verdadeira liderança tem objetivos bem definidos e deixa esses objetivos claros para os seus liderados. O líder não pode titubear ou ser inseguro em seus propósitos, ainda mais em um momento tão decisivo como aquele que Jesus estava vivendo, ou seja, os últimos momentos de treinamento da equipe que daria sequência no ministério da igreja. Se Ele falhasse a equipe também falharia; se Ele duvidasse do propósito, a equipe não levaria a plano adiante. Equipes se espelham e seguem líderes que tem propósitos bem definidos. 

UMA LIDERANÇA QUE AMA INCONDICIONALMENTE

“...como havia amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. (Jo 13.1c) 

Em Jo 3.16 diz que “Deus amou o mundo de tal maneira, que enviou o seu Filho”. Embora o amor de Deus pelo mundo tenha enviado o Filho, foi o amor do Filho pelos seus que estavam no mundo o que fez com que o sacrifício de amor se tornasse realidade.

A expressão “...até o fim” reflete somente a conclusão temporal da encarnação, e parece não exprimir o verdadeiro sentimento de João ao escrever essa afirmação.

O termo grego “eis telos”, traduzido na maioria das versões como “até o fim” indica grau no sentido de “plenamente”, “absolutamente”. Macgregor escreveu: “Até os limites máximos do amor”. Hoskis disse: “Ele os amou completamente e finalmente, até o final, até a morte”.  Ele os amou incondicionalmente até o fim, independente dos seus erros, fraquezas, limitações ou traições, como foi o caso de Judas Iscariotes.

            O exemplo que Jesus nos deixou em sua liderança de amor incondicional é que precisamos amar a todos incondicionalmente, sem seleção. Naturalmente, o ser humano parece escolher a quem amar, abrindo o coração para quem lhe é mais afeiçoado e apresenta vantagens ou retorno visível. Não foi isso que Jesus nos ensinou com o “os amou até o fim”.

            Amar até o fim é entregar a cruz no final, e não a deixar na beira do caminho. Amar até o fim é suportar o mais fraco até o final, e não o abandonar durante a caminhada evitando os contratempos. Amar até o fim é amar mesmo sendo traído, ferido, abandonado. Quão duro é ser líder no modelo apresentado por Jesus. 

UMA LIDERANÇA QUE SABE LIDERAR A TODOS, INCLUSIVE A OPOSIÇÃO

 “E, acabada a ceia, tendo o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que o traísse”. (Jo 13.2) 

Sejamos sinceros, não é fácil lidar com a oposição! Eu acreditava que esse tipo de coisa não acontecia no meio Cristão, em especial entre líderes ou no ministério. Mas infelizmente acontece! Enfrentaremos oposições até mesmo por pessoas que pensávamos estar ao nosso lado. Até este momento, Jesus lidou com as oposições externas; mas a partir daquele momento se manifestaria a oposição interna. O diabo, personificação de tudo o que é mal, se apossara de Judas, que deixou que ele ocupasse o seu coração para trair Jesus. Jesus sabia que Judas o trairia, mas mesmo assim lavou os seus pés, em total demonstração de humildade e exemplo da liderança que sabe lidar com a oposição. Situações como estas requer graça e favor do Senhor na vida do líder. Existem momentos que ele terá que conviver com o opositor, pedindo a Deus as estratégias necessárias para que não cause danos ao rebanho. Se houver danos, que não seja por ações da liderança contra o opositor fora do tempo e da direção de Deus. O líder precisa entender que a oposição se manifesta por si só, e se não se consertar a tempo e se arrepender, ela se auto destrói. O líder sábio identifica desde o início a oposição, desde o nascedouro.

Uma reclamação aqui, outra ali. Uma murmuração aqui, outra ali. Daqui a pouco o coração está tomado pela insatisfação e nasce o rebelde. Jesus escolheu a Judas assim como escolheu os outros 11. Judas era vocacionado. Jesus não chamou um traidor. Jesus chamou Judas para ser um discípulo. No entanto, ser discípulo exige algumas renúncias das quais Judas não estava disposto.

Jesus investiu todo o seu amor e seu tempo em Judas, mas ele não entendeu o propósito da missão de Jesus. É possível termos ao nosso lado, convivendo conosco, pessoas que infelizmente não entendem os nossos propósitos e não estão alinhados com nossos projetos. Isso faz com que nasçam discordâncias, contratempos, diferenças de pensamentos, divergências, opiniões contrárias, dentre outros sentimentos que precisam ser controlados com o devido cuidado para que não se transformem em insatisfaço e por fim em rebeldia.

Judas opunha-se periodicamente a tudo o que Jesus fazia, e em especial, cito o episódio da adoração de Maria. Ora, quem estava sendo adorado e reverenciado era o Seu Mestre amado, Jesus, mas ele se apôs e disse que era um desperdício o uso daquele unguento derramado aos pés de Jesus (Jo 12. 3-19). O espírito que entrou no coração de Judas ainda acha um desperdício todos os recursos que gastamos em prol da adoração a Cristo!

Perceba que no texto que estamos usando como base para a nossareflexão, João 13, no versículo 2 o diabo colocou no coração de Judas o desejo de trair Jesus; já no versículo 27, após comer o pão, Satanás entrou em Judas. Ele passou por um processo para se tornar um rebelde opositor. Ele não nasceu um traidor; ele se transformou em um traidor ao deixar que Satanás tivesse legalidade sobre o seu coração. Durante todo este processo, Judas caminhou com Jesus e o Mestre não o colocou para fora do ciclo apostólico porque ele sabia liderar opositores.

Se você é líder, Deus vai lhe dar graça para liderar a todos, inclusive os opositores. Liderar obedientes é como remar em águas tranquilas; liderar a oposição é como navegar em tempestade com a maré contrária. É difícil, mas não é impossível porque Jesus está no barco! 

UMA LIDERANÇA SERVIDORA

“Depois, pôs água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido”. (Jo 13. 3-5) 

            Lavar os pés dos convidados era papel do servo, do escravo da casa, e não a função do anfitrião que oferecia a ceia. O que Jesus fez foi rebaixar-se a altura do mais humilde homem presente para dar o exemplo de líder servidor.

            O Evangelho de Jesus não aceita como lideres pessoas presunçosas, vaidosas, soberbas. Aqueles que ocupam lugar na liderança cristã precisam ser revestidos de humildade e terem um coração servidor. Recentemente ouvi alguém dizer que o líder cristão que é cheio de si mesmo não tem condições de pregar sobre um Deus que se esvaziou.

            Jesus, sendo Deus, deixou a Sua glória, “não teve por usurpação ser igual a Deus, mas tomou a forma de servo” (Fp 2.7). Esse é o modelo de servo servidor, aquele que se esvazia, mesmo podendo ostentar. Aliás, a ostentação não cabe na liderança cristã. O líder cristão vai servir a pessoas humildes da sociedade, em sua grande maioria, pessoas trabalhadoras, assalariadas, que contribuem com fidelidade e alegria para o sustento da obra de Deus. Por isso, o líder precisa ter cuidado com a ostentação de bens, carros, relógios caros, casas luxuosas, dentre outras atitudes que o desqualifiquem como líder que se esvaziou. Convém salientar que o esvaziamento não é somente visto externamente, mas sem dúvida é refletido desta forma. O líder precisa ser servo.

            Nos Evangelhos, Jesus nos apresenta diversos textos que demonstram a sua liderança servidora, tais como Marcos 10.45: “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” e Lucas 22.27: “Entre vós sou como aquele que serve”.  O Mestre sempre nos deu o exemplo de líder servidor e no final de Seu ministério terreno lava os pés do seus discípulos para marcar para sempre no coração de seus seguidores que a essência do ministério cristão é servir e não ser servido. Se ainda resta dúvida acerca de qual é o seu papel como líder, te convido a rever os seus conceitos e imitar a Jesus, o Deus Servidor. 

UMA LIDERANÇA CUJAS AÇÕES SÃO EXEMPLOS PARA OS SEGUIDORES

“Porque eu vos dei o exemplo...” v. 15 

            O exemplo é construído por ações repetidas, que uma vez confrontadas com a verdade das Escrituras e com aquilo que se prega é achado em conformidade, e não em oposição. Tem muita gente que prega uma coisa e vive outra completamente diferente, e mesmo assim querem estar em posição de liderança.

            A liderança cristã exige um padrão a ser seguido, copiado, tendo como molde as Escrituras Sagradas. É nela que o líder vai encontrar o seu parâmetro de vida, que uma vez vivido pode ser copiado.

            Só tem autoridade para reivindicar ser o exemplo aquele que vive em Cristo e Cristo vive nele. Paulo escreveu para a igreja de Corínto: “Sede meus imitadores, como também eu de Cristo”. Paulo podia ser o padrão a ser seguido porque ele mesmo já tinha se moldado a Cristo, o líder por excelência. O líder cristão precisa ser o exemplo em várias áreas de sua vida pessoal, espiritual e ministerial.

            O líder precisa ser exemplo de servo servidor, como já abordamos no ponto anterior, ser exemplo no amor ao próximo, na sua dedicação e cuidado com a família, exemplo no trato com os mais velhos, no compromisso com a sã doutrina e ensino da Palavra de Deus, exemplo na oração, no zelo pelas coisas de Deus, na consagração e santificação, na administração do dinheiro que pertence a igreja, no trato com os companheiros de ministério, dentre tantas outras coisas.

            Para ser o exemplo, o líder precisa se apegar constantemente a Deus, a Sua Palavra e ao Espírito Santo, que o ajudará a vencer as lutas diárias a fim que permaneça fiel a quem o chamou e sirva de exemplo ao rebanho. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

            Ser líder nos dias atuais não é fácil. Vivemos em tempos de muitas vozes, de muitos modelos e métodos que prometem a instituição perfeita e o líder perfeito. No entanto, como observamos no texto bíblico analisado, João 13, podemos encontrar em Jesus o perfil do verdadeiro e perfeito líder que nos ensina a lidar com os mais diversos desafios da liderança cristã. A análise acima abordou aspectos da liderança de Jesus a partir do texto de João no capítulo 13, e evidentemente poderíamos citar diversas outras qualidades da liderança perfeita que encontramos em Jesus ao longo de seu ministério. Mas os pontos abordados, se observados por aqueles que servem a igreja, podem tornar a sua liderança mais eficaz e mais próxima daquela que Jesus nos ensinou. Vale lembrar que liderar com excelência é a repetição diária de pequenas ações positivas, corrigindo rotas diariamente, nunca desistindo de sempre servir melhor. Que o Espírito Santo nos ajude.

Em Cristo, 
Pr Samuel Eudóxio

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CARREGADORES DA GLÓRIA

Nm 3,4

Além dos sacerdotes que realizavam os rituais, os levitas (divididos em três clãs principais) eram responsáveis por transportar, montar, guardar e manter toda a estrutura física e os utensílios do Tabernáculo no deserto.

Os Clãs de Levi e suas Funções

Cada família de levitas tinha uma tarefa específica durante as marchas e no acampamento do povo de Israel:

Coatitas (Família de Coate): Carregavam os objetos mais sagrados do Tabernáculo, como a Arca da Aliança, a mesa dos pães, o candelabro e os altares.Eles levavam esses objetos nos ombros com varas, mas os sacerdotes (filhos de Arão) precisavam cobrir os móveis sagrados primeiro. Os coatitas não podiam tocar nos objetos sagrados para não morrerem.

Gersonitas (Família de Gérson): Transportavam as partes de tecido e couro do Tabernáculo.Cuidavam das cortinas da tenda, das coberturas de pele de texugo, das cortinas do pátio externo e das cordas.

Meraritas (Família de Merari): Transportavam a estrutura pesada de madeira e metal.Cuidavam das tábuas da armação do Tabernáculo, das barras, das colunas, das bases de prata e de todas as estacas do complexo.

Outras Atividades dos Levitas

Além de carregar o santuário durante as viagens pelo deserto, os levitas exerciam funções diárias de apoio:

Guarda e Segurança: Vigiavam o Tabernáculo dia e noite para impedir que pessoas não autorizadas se aproximassem e tocassem nas coisas santas.

Auxílio aos Sacerdotes: Ajudavam a preparar os sacrifícios, limpavam o pátio, cuidavam da lenha, da água e dos utensílios usados nos rituais.

Canto e Música: Mais tarde, no período do templo e em momentos de celebração, grupos de levitas foram separados para tocar instrumentos e cantar louvores a Deus.

Cada um contribuía para que depois a glória se manifestasse

Um carregava a tenda, outros os varais, outro a Arca, outro as mesas, outro as tábuas, outros as estacas. Cada um na sua função, no seu dia, contribuia para que o Tabernáculo fosse levado e montado. Alguém escolhia o lugar para colocar o Tabernáculo, a presença de Deus no deserto. Outros tiravam as coberturas dos móveis, outros montavam, outros batiam as estacas. Outros colocavam a mesa e o candelabro no lugar certo; assim como a mesa dos pães e o incensário. Outro colocava a cortina que separava o Lugar Santo do Santissímo. Colocavam a Arca atrás do véu.

Ms haviam os responsáveis pelo culto, pelo sacrifício, por matar o animal, e por entrar uma vez no Santo dos Santos e contemplar a manifestação da glória. 

Fico imaginando quando a glória se manifestava no Lugar Santo e o povo se alegrava com a presença, com a certeza do perdão, do cuidado, da misericórdia de Deus entre o povo. Fico imaginando o irmão levita que carregou os móveis, cujo nome ninguém sabe, o que bateu as estacas e firmou o Tabernáculo para o culto, eles no meio do povo e vendo a Glória manifesta. Será que não se alegravam? Será que não compartilhavam da presença? Será que não seram alcançados pelos benefícios do Altar? Evidentemente que sim. Serviam com alegria, com disposição, sentiam-se honrados de fazer parte do todo. 

Sem me alongar muito, Deus tem um chamado, uma vocação, um lugar para todos em sua obra. Tudo o que fazemos é importante e faz parte do culto que prestamos a Deus; tudo contribui para que a Glória apareceça, para que o povo se ajunte e adore; para que o nome do Senhor seja glorificado. 

Tem dia que parece dificil caminhar e carregar o peso da presença e da glória de Deus. As provas e dificuldades do caminho, o sol causticante dos desertos da vida e das provações querem nos fazer parar, mas é nesse momento que precisamos nos lembrar de onde Deus nos tirou, o que Ele fez por nós. Aqueles homens carregavam tijolos o dia todo, com capatazes os oprimindo para que produzissem para o Egito e Faraó. Deus os tirou do Egito para carregarem a sua glória no deserto. Carregar a glória no deserto é infinitamente melhor que carregar tijolo para Faraó. 

Saiba o seu lugar e sirva com alegria! 

Em Cristo, 

Pr Samuel Eudóxio

segunda-feira, 8 de maio de 2023

A TEOLOGIA DE JESUS JAMAIS SOFREU E JAMAIS SOFRERÁ QUALQUER ALTERAÇÃO NO TEMPO E NA ETERNIDADE

 


Jo 1.1: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”

A Teologia de Jesus não sofre alteração no tempo e na eternidade porque o próprio Jesus é eterno. Ele não tem início e nem fim de dias. Ele transcende a Eternidade. O nobre amigo, Pr Natanael Santos, Presidente da AD Barretos (SP), cita em seu livro a Glória do Verbo:
“Embora a expressão ‘no princípio’ seja a mesma usada para dar início ao relato da criação no livro de Gênesis (1.1), no Evangelho de João ela aponta para um princípio sem começo que remonta à eternidade intraduzível, significando que o Logos em tempo algum jamais deixou de existir com o Pai (Cl 1.17).”
O Dicionário Ilustrado da Bíblia define “eternidade” como “tempo infinito ou ilimitado; tempo sem começo nem fim [...] como Criador, Deus trouxe o mundo à existência, mesmo antes do próprio tempo (Gn 1.1).” Esse entendimento pode ser difícil ao homem preso ao “chronos”. Não há como mensurar esse tempo na existência do mundo e das coisas criadas.
Paulo escrevendo aos Colossenses falando sobre o Cristo Eterno, diz: “o qual é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.” (Cl 1. 15-17)
Concordando com Paulo, João escreve que “Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.2,3). Em Apocalipse 1.8, Jesus diz acerca de si mesmo: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso”.
A teologia de Jesus não pode ser consumida pelo tempo e pela eternidade porque o próprio Jesus é Eterno. A sua teologia não é terrena, mas é eterna, vinda de Deus.
Outrossim, podemos acrescentar que a sua Teologia não é vencida pelo tempo porque Jesus é Deus. A sua teologia não foi fabricada nos gabinetes teológicos dos homens, ou nas discussões filosóficas da Grécia, ou pela força das leis de Roma, ou nas modernas academias de nosso tempo. Ela nasceu na eternidade, com o Cristo que é Deus, mas que também é o Cordeiro morto antes da fundação do mundo (1 Pe 1. 18-20; Ap 13.8).
Pr Samuel Eudóxio
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Referências
Bíblia de Estudo Pentecostal
Gilmer, T.L. Concordância Bíblica Exaustiva. São Paulo. Editora Vida: 1999
Silva, A. G. Bibliologia I. Campinas. EETAD: 2014
Oliveira, R. F. Elementos da Teologia Bíblica. Campinas. EETAD: 2014
Youngblood, R. F. Dicionário Ilustrado da Bíblia. São Paulo. Vida Nova: 2004
Vine, W. E. Dicionário Vine. Rio de Janeiro. CPAD: 2002
Santos, N. A Glória do Verbo. São Paulo. Edição do Autor: 2018

sábado, 22 de abril de 2023

QUAL TEOLOGIA QUEREMOS EM NOSSAS IGREJAS?

Em tempos em que a Teologia voltou ao centro das discussões acadêmicas, pelo menos no meio cristão evangélico, especialmente no pentecostal, é bom lembrar que a maioria das heresias que chegam em nossas igrejas é pela mente de teólogos acadêmicos.

Os obreiros da base, das "prateleiras de baixo", como são chamados por muitos, podem sim errar, mas os seus erros em assuntos de Bíblia e Teologia na maioria das vezes não são intencionais e não causam o mal que os erros doutrinários produzidos nas faculdades teológicas podem causar.
A maioria dos obreiros leigos estão prontos para serem corrigidos, são abertos para aprender, ao contrário dos teólogos fabricados puramente pelas vias acadêmicas e que foram embebedados pela Teologia puramente filosófica. Nesse tempo, há uma insistência absurda por uma Teologia Cristã sem Bíblia, sem piedade e sem o fervor do Espírito Santo, e isto não é um mal somente desse tempo.
Quando olhamos no retrovisor da história aprendemos que o esfriamento da igreja da Europa não começou nos púlpitos das igrejas, mas nas faculdades teológicas que abriram suas portas para o Liberalismo Teológico após o florescer da razão com o Iluminismo do século 18 e inicio do 19. A fé foi trocada pela razão, ciência e cultura, e a Teologia praticada naquele tempo foi avaliada como ciência ultrapassada, que necessitava ser revista de acordo com o novo tempo do saber. Nesse contexto, a "nova teologia" formou centenas e milhares de "teólogos" que levaram esse fermento para as igrejas nas quais ensinavam e pregavam, e o resultado todos nós sabemos: a inspiração da Bíblia começou a ser questionada, as narrações de Gênesis passaram a ser vistas como mitologia, os milagres de Jesus passaram a ser vistos como invenções de gente piedosa e cheia de fé, entre outras coisas.
Hoje, a história se repete. Tem muita Teologia perniciosa, cujo frasco é bonito, mas no interior tem um "perfume fraco e barato", sendo produzida neste exato momento em centenas de salas de aulas de Faculdades Teológicas no Brasil à fora, e sendo desaguada nos púlpitos de nossas igrejas e classes de Escolas Dominicais. Nesse bojo, observamos adentrar em nossas igrejas a Teologia da Missão Integral (versão evangélica da Teologia da Libertação), Teologia da Experiência, Teologia do Meio Ambiente, entre tantas outras invencionices que tem como objetivo o enfraquecimento da fé e da autoridade das Escrituras.
Para fazer frente ao avanço desses falsos ensinos, é preciso que Deus levante atalaias em cada igreja local. Homens compromissados com a Palavra de Deus e a ortodoxia bíblica. Outrossim, é de suma importância que nossas Comissões de Doutrina sejam compostas por homens amantes das Escrituras e que tenham o hábito da leitura e da pesquisa, para não só advertir sobre esses desvios, mas para trabalhar na formação de obreiros bíblicos, muito mais que acadêmicos.
Há algo errado com o estudo acadêmico da Teologia? O seu estudo está restrito apenas ao ambiente das igrejas? Não é isso. O alerta é para que voltemos a produzir boa Teologia na base, por homens piedosos, cheios do Espírito Santo, tementes a Deus e fiéis às Escrituras. A formação Teológica acadêmica é importante e necessária, mas sem a Bíblia ela torna-se apenas mais uma ciência sem vida e sem efeito.
Em Cristo e com temor.
Pr Samuel Eudóxio

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

A heresia da igreja de Colossos

    A carta de Colossenses foi escrita cerca de 62 d.C, tendo como autor o Apóstolo Paulo, e tema central “a supremacia de Cristo”. Paulo não foi o fundador desta igreja, e não teve a oportunidade de visitá-la. O Apóstolo ouviu falar da fé daqueles crentes (Cl 1.4,9), mas não chegou a encontrar pessoalmente com os irmãos colossenses (Cl 2.1). Tudo indica que Epafras foi o fundador dessa igreja, e que foi para ela um “fiel ministro de Cristo”. (Cl 1.7).

    Paulo, preso em Roma, recebe a visita de Epafras, que traz notícias de que novas doutrinas estavam entrando na igreja de Colossos, e que estavam causando transtornos ao bom andamento da obra naquela cidade. A ameaça herética a igreja de Colossos era uma mistura de filosofias orientais e de legalismo judaico com elementos de uma crença que os estudiosos da Bíblia chamam de gnosticismo, que vem de um termo grego que significa “saber”. 

    A heresia presente na igreja de Colossos, que podemos considerar um misto de erros doutrinários, ensinava que o espírito é bom e estava aprisionado no corpo, e tudo o que se fazia no corpo não tinha problemas, o que era uma licença para todo tipo de pecado e uma anulação da necessidade de santificação. Outra grave ameaça que estava presente naquela igreja é que como ensinavam que o corpo era essencialmente mal, era inconcebível que Cristo, a Divindade, habitasse no corpo, e assim negavam a encarnação de Jesus. Para eles, a ideia de Deus “tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.6,7) não se encaixava na ciência defendida por seus ensinamentos. Negando toda a divindade e obediência a Cristo, os falsos mestres incentivavam os crentes a uma busca por sabedoria e conhecimento, que era a única forma de libertar o espírito do corpo, e alcançar níveis espirituais privilegiados. Com “sutilezas e vãs sabedorias” (Cl 2.8), com pretextos de revelações extraordinárias e “culto dos anjos” (Cl 2.18), que alguns dizem significar “adorar no mesmo nível dos anjos” além de adorar a anjos, esses mestres da mentira diziam ocupar lugares privilegiados alcançados por poucos, subjugando e limitando a experiência cristã dos crentes de Colossos.

    É nesse sentido, que Paulo já no início da carta, no capítulo 1, adverte aos crentes que orava para eles fossem “cheios do conhecimento da sua vontade (de Cristo), em toda sabedoria e inteligência espiritual” (Cl 1.9). É Nele, em Cristo, que podemos “conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério” (Cl 1.27), e este conhecimento não está restrito a um grupo seleto de homens, mas “a todo homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo homem perfeito em Jesus Cristo” (Cl 1.28). Isso era uma loucura que confundia os sábios: Cristo, Deus, não somente “se tornou homem”, e “foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Cl 1.19), como também o Seu Poder era suficiente para santificar todo aquele que se chegasse a Ele, aqui no tempo presente, e perfeitamente, em um tempo futuro na eternidade, em Sua vinda. Outrossim, Paulo defende também, já de início, a Divindade de Cristo, mostrando aos falsos mestres de Colossos que Cristo “é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criação” (Cl 1.15). Ele não é um ser criado, mas conforme diz a Bíblia de Estudos Pentecostal, “ele é o primeiro quanto a posição, herdeiro ou preeminente”. “Ele estava no princípio com Deus, todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1. 2,3). Paulo acrescenta a “todas as coisas”, que Jesus criou as “coisas visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele.” (Cl 1.16). Negar a Divindade de Cristo era apagar a história do cristianismo. Paulo combate veemente essa heresia, e defende a Divindade e Poderio de Jesus, mas aqueles falsos mestres ainda tinham outras armas contra a boa doutrina. 

    Outra “estranha heresia” presente na igreja de Colossos era que eles estavam subjugados a um conjunto de normas e regras advindas do judaísmo (Cl 2.20-23), e firmavam nisso a sua fé e esperança de salvação, mas Paulo os adverte que aquelas práticas “têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria [...] mas não são de valor algum, senão para satisfação da carne.” (Cl 2.23). Paulo contrapõe os colossenses mostrando-lhes que de nada adianta ser detentor de um arcabouço humano de regras, vivendo uma vida de aparências, e que aquele que já ressuscitou com Cristo busca as coisas que são de cima (Cl 3.1), mortificando de fato os membros que estão sobre a terra (Cl 3.5), “a prostituição, a impureza, o apetite desordenado, a vil concupiscência e a avareza, que é a idolatria” (Cl 3.5). Os colossenses precisariam entender que não dá para ser Cristão e viver uma vida de promiscuidade na carne, no pecado, e por mais que aquela filosofia ensinasse a impossibilidade de uma verdadeira santificação, isso era sim possível em Cristo. 

    Concluindo, por mais que o assunto seja vasto, percebe-se que as mesmas ameaças estão presentes hoje na igreja de Cristo. A busca pela sabedoria humana e da razão em detrimento do sobrenatural; a abertura ao progressismo teológico e a teologia liberal em detrimento dos milagres; a aceitação e normatização de práticas contrárias à Palavra de Deus como forma de inclusão, focando o que é terreno, carnal, em detrimento de uma vida de santificação e separação para Deus; a relativização de verdade absolutas, em nome do politicamente correto. Como Paulo, precisamos combater essas heresias com o ensino genuíno da Palavra de Deus, colocando para fora toda falsa sabedoria e modismos que ameaçam a igreja, para que “a palavra de Cristo habite” de forma abundante a vida dos crentes de hoje. (Cl 3.16). 

Em Cristo, 

Pr Samuel Eudóxio